Existe na imaginação magníficas portas que levam a lugares desconhecidos, exóticos e únicos, basta fechar os olhos e quem sabe o que as portas de sua imaginação irão lhe mostrar.
Em algum lugar por trás de uma dessas portas, havia um lago magnífico, quando tocado pelo sol parecia ser feito de ouro liquido, nele repousava uma grande ilha que lembrava um navio, ou será que era um navio que parecia muito com uma ilha? - Lá o incerto era o certo de acontecer.
Um lugar que servia aos desencontros e aos perdidos, mas por centenas de anos não viu nenhum visitante se aproximar.
Certo dia, um frágil bote riscou lentamente as águas douradas, nesse bote um pequeno garoto repousava tranquilamente sem saber o que a entidade faceira conhecida como destino lhe reservava.
Enquanto o barquinho avançava somente silêncio parecia o acompanhar, o garoto se sentou e fixou seus olhos na antiga ilha, seu semblante preocupado apresentava clara determinação.
Uma canção ressoava se aproximando:
"Man, be careful with a fool
You know, someday he may get smart
Man, be careful with a fool
You know, someday he may get smart
He will treat you so cool and chilly
Till he hurt you to your heart"
“Com essa cara enrugada, você deve ser o filhote de homem mais idoso que existe! Pare um pouco rapaz, venha com o velho Pavó, vamos apreciar essa paisagem e cantar um pouco!”– Uma voz grave fez a criança olhar em volta e perceber o pássaro realmente grande que estava repousado em um tronco igualmente grande boiando ao lado do bote.
Pavó tinha uma plumagem negra elegante, o peitoral e pescoço eram de um vermelho vivo e seu bico era azul celeste, mas o garoto percebeu algo de errado, aquele belo pássaro não possuía asas, dois tocos patéticos eram ocultados por suas penas.
Respirando fundo entediado, olhou em volta para as margens do lago, as arvores de copas brilhantes pareciam encrustadas com pequenos rubis que voavam em todas as direções. Qualquer pessoa normal teria parado embasbacado com a impressionante visão, mas não o garoto.
Revirando os olhos ele retrucou para o pássaro:
“Preciso chegar até aquela ilha, andei muito e sinto muita fome, não tenho paciência nem tempo para ser gasto com besteiras! Eu continuarei meu caminho e recomendo que meta seu bico só nos seus negócios”.
“Rapaz, escute um pouco minha história, a ilha não vai sair daquele lugar e isso eu garanto, escute bem pois, sinto que somos mais parecidos do que podemos imaginar” – O pássaro tinha os olhos leitosos, era cego então não pode ver a negativa silenciosa do garoto.
“Começa há muito tempo, quando eu era o pássaro dos pássaros, encarava ventos fortes, longas distâncias não eram nada, além enxergar uma agulha no topo de uma montanha. Meu maior sonho era voar tão alto que dançaria e cantaria com meu grande amor, o Sol.
Com os olhos fixos nele, eu voei cada vez mais alto e cada vez mais rápido, subia e subia com determinação, mas conforme o tempo ia passando, sentia meus olhos queimarem e meu amor continuava tão distante como sempre foi.
Logo, eu já não podia reconhecer o céu azul ou o verde da grama, até mesmo meu amado desapareceu do meu horizonte e a escuridão me dominou, na época ainda podia voar, mas as vozes conhecidas e se diziam amadas falavam que já era tarde, não havia em mim talento o suficiente, não adiantava um pássaro cego tentar voar.
Ninguém me deu uma direção que fizesse sentido, estava me sentindo perdido em uma torrente de sentimentos incontroláveis, me culpando e culpando o mundo por não responder as minhas expectativas.
Aquelas palavras arrancaram minhas asas pouco a pouco e durante muito tempo até não sobrar nada. Um dia que me cansei daquilo e resolvi que era hora de caminhar pelo mundo, não para ver obviamente, mas sentir o mundo.
E o mundo me sentiu, conheci histórias incríveis que no final eram parecidas com as minhas e diferentes ao mesmo tempo, você ficaria encantando com as histórias da mais simples pedra, basta saber ouvir.
Mas eu continuava perdido em um turbilhão que me fechava a garganta e acelerava minha pulsação, enquanto a tristeza me fazia companhia na maior parte do tempo.
Caminhei muito e por muito tempo, até que minhas pernas cansadas encontraram um tronco confortável, um lago puro e com um cheiro delicioso, ainda podia cantar e quando fico em silêncio sinto o toque de meu amado Sol. Ele está aqui, posso sentir seu calor e por trás da escuridão enxergo o brilho intenso que não machuca mais meus olhos.
Então rapaz, tem certeza que não quer parar e cantar um pouco? ”
"Man, be careful with a fool
You know, someday he may get smart
Man, be careful with a fool
You know, someday he may get smart
He will treat you so cool and chilly
Till he hurt you to your heart"
E com sua voz grave o pássaro recomeçou a entoar seu blues que falava como os homens tolos podem se tornar espertos, mas o rapaz seguiu seu caminho sem se despedir, refletindo sobre a conversa com Pavó.
Quando o rapaz deu por si o estômago roncava e a cabeça zumbia, mas ele teria que se contentar apenas com a esperança de que seria fácil chegar até seu destino e lá seria mais fácil ainda encontrar comida. Ou ele morreria, mas desde que fosse na areia ele estaria satisfeito.
Horas se passaram e não estava mais próximo da ilha do que quando havia embarcado, por mais que a sombra do ponto mais alto da ilha pudesse quase ser tocado, o bote parecia jamais se aproximar da praia.
Ele remou por algum tempo, começando com grande esforço, mas logo ele quase se sentia um profissional. Sorrindo com perspectiva de um garotinho tão inútil poder ser um atleta oculto ele se entregou a tarefa como se fosse um grande jogo, e mesmo assim, a ilha ainda não estava nem um pouco mais próxima.
Mesmo após horas de remadas o Sol se manteve na mesma posição, assim como a praia. O garoto então parou e olhou diretamente para a ilha espelhada na superfície do lago, o calor o dominava e suas roupas estavam empapadas de suor, sem aviso mergulhou nas águas douradas.
Ao abrir os olhos ele estava abraçado por uma morna escuridão e mesmo sem ar não havia sinal de medo ou hesitação no rapaz, ele parecia mais entediado do que nunca, como se aquilo tudo fosse trabalhoso demais para ele.
Quando a criança começava a se perguntar do porquê ter feito aquilo, bolhas diante dele, com tamanhos e cores diferentes elas dançavam, girando em torno de si mesmas e do garoto boquiaberto.
Nessa altura o desespero por ar invadiu os pensamentos dele, então o garoto confuso tocou uma bolha azul próxima e um som grave ecoou por aquele universo escuro.
Se viu rodando como se estivesse preso em um redemoinho, sentiu um vento forte lhe secando as roupas e o congelando até os ossos, ele podia respirar, mas não ousou abrir os olhos.
Seus pés subitamente se sentiram em terra firme.
Ele abriu os olhos e constatou que a ilha que ele aguardou tanto para conhecer, envolta em mistérios e lendas, à primeira vista era só uma ilhazinha qualquer lotada de mato alto e insetos.
Era esse o pensamento até que uma anta se aproximou do pequeno rapaz, possuía um olhar de peixe morto, claramente incomodada com a presença de alguém em seu espaço pessoal.
“Aqui não é lugar para chorões, se estiver perdido e quiser pode ficar perambulando por aí, mas se não gosta daqui vaza! Manézão! Não espere nenhum hotel cinco estrelas por aqui! ”.
Mesmo com o esporro, finalmente ele compreendeu que havia chegado ao lugar que tanto desejou, aqui ele poderia criar sua casa da forma que quisesse, longe de tudo e todos ele poderia simplesmente ser ele mesmo, sem cobranças, expectativas ou amolação. Não havia alegria maior!
Explorando a praia chegou em uma trilha que seguia subindo pela floresta em direção do que parecia ser uma das extremidades da ilha, não parando para pensar duas vezes, avançou pela trilha estreita e íngreme que se estendia em meio a mata fechada.
A trilha parecia sempre subir e a caminhada era bem penosa, o garoto sentia o suor escorrer pelo rosto e mesmo parecendo ter passado anos desde sua partida, o Sol ainda estava estonteante no centro do céu tingindo as águas do grande lago.
Enquanto a trilha subia sem parar na floresta mais íngreme que se pode imaginar, os pássaros criavam uma melodia própria, não era uma algazarra animada como se espera de dias claros em cenários paradisíacos, era uma melodia suave que alternava sons longos e densos com outros mais curtos e suaves, uma melodia de despedidas ou para o sono, talvez?
Chegou em uma montanha estranhamente retangular que abrigava uma caverna de paredes retas, a entrada coberta de musgo e samambaias não impedia a luz ambiente de entrar, parecia ser um local perfeito de acampamento.
Nas profundezas uma árvore crescia solitária ao lado de um córrego.
Uma sombra convidativa surgiu e o garoto sentia-se cansado, deitou ainda embalado pelo som lento dos pássaros, suas pálpebras pesavam e iam se fechando.
O piado gentil dos pássaros se parecia mais com a melodia de um piano, e não estava sozinho, era acompanhado pelo som grave de um violoncelo em harmonia com um chamativo violino.
O som aumentava e se tornava cada vez mais intimidador até se retrair subitamente em uma calma única, mergulhando a realidade do rapaz de um vermelho em luxúria até o azul da passividade, sem pensar em nada conseguia ver o som formando tudo e dando forma a si mesmo, era como uma grande tela que o som pintava.
Havia um pequeno ponto vazio no centro da tela, e mesmo com a transição de imagens e cores magníficas que o som causava, o ponto vazio ia se expandindo e formando um buraco cinza.
Alguns pensamentos vinham a mente do garoto, sua própria voz atrapalhava a bela melodia, ele gritava sem saber ao certo o que, e o buraco na tela era a imagem do próprio sofrimento.
O buraco ia se expandindo pela tela tornando tudo vazio, e o jovem estava entregue.
Um estrondo e uma maçã na cabeça ensinaram ao rapaz que não se dorme em baixo de uma árvore carregada de frutos. Ele despertou assustado e ensopado.
“Garoto você parecia estar tendo um sonho daqueles! Uma maçã na cara não deve doer muito e ajuda a pôr as ideias em ordem” – A voz que saia da árvore era grosseira, seria um clichê de lenhador se a voz não viesse da própria árvore.
“Quando a maçã cai de uma altura de dois metros diretamente na cara de alguém, provavelmente dói bastante”. – O garoto massageava sua testa enquanto um calombo se formava.
“Pode ser... Não se preocupa com coisa pequena, aliás, tá fazendo o que aqui? Chega todo encostadinho se apoiando nos outros e ainda dormindo depois, meio mal-educado não acha não?”
Depois de desculpas sinceras o rapaz se preparou para procurar abrigo em outro lugar, mas antes foi presenteado com maçãs e a macieira indicou um córrego próximo que podia beber água limpa.
“Já que tá aqui vou te conta a história da ilha, senta essa bunda magra ai, e não vem se encostando não, pronto?
Eu era o capitão desse barco, o dono era um figurão da nossa época e quando ele não aguentou mais as coisas loucas do mundo decidiu que ia fugir para o mar e navegar sem parar.
Essa belezinha que estamos é tecnologia de ponta, um navio autossustentável que produzia comida, energia e uma vida fácil para as centenas de pessoas que decidiram embarcar nessa.
Eu e todos que viemos de empregados estávamos buscando viver daquilo que amávamos, sem preocupações e fazer algum qualquer, já os ricos vieram fugindo do que o mundo estava se tornando, mas o que eles não sabiam era que a loucura de fora, também era a loucura de dentro.
Logo, aqueles que estavam apenas entregues ao ócio e as lembranças começaram a agir esquisito, se fechavam em suas cabines e só podíamos sentir o cheiro de podre que seus cadáveres exalavam, alguns se jogavam no mar sem nenhum aviso.
Vultos estranhos, corpos mutilados e outras coisas aterrorizantes eram encontradas todos os dias, uma anarquia caótica reinou e aqueles que não perderam a sanidade se isolaram na área reservada ao patrão, era uma grande ala que tinha o necessário para a sobrevivência por muito tempo, e não haviam restado muitos de nós também, das centenas de pessoas que embarcaram restaram naquele lugar apenas vinte dos trabalhadores, o patrão e sua amante.
Deixamos a embarcação seguir o rumo da corrente e depois do que pareceu meses à deriva tomamos coragem para desbravar o navio.
Além da cena ser lastimável, não havia nenhuma alma viva e por termos passado dias antes muito próximos a um trecho de continente parecia que os loucos que restavam tinham abandonado o navio, era terrível demais imaginar o que fariam em terra.
Então meio sem saber o que fazer ficamos apenas entregues ao torpor, cada um fazendo o que amava, eu me sentei nesse cômodo que estamos e fiquei criando histórias, contava para as paredes ou para quem quisesse ouvir.
Por isso não percebi quando vagarosamente paramos nesse lago, acho que foi no dia que o patrão morreu, quando a vontade de navegar cessou, aquela única e pura vontade que não era fuga como eu supus no começo da viagem, o patrão queria desbravar e conhecer os mares do mundo muito mais do que eu sonhava em ser um capitão.
Essa vontade que manteve o barco navegando e o fez chegar em nesse belo destino, a vista daqui é incrível e só melhora com ajuda dos músicos, nem me lembro quando eles criaram asas, mas não diminuiu seu talento.
Foi assim, não tendo mais seu propósito e coração na forma de homem, o barco se tornou ilha.
Seus tripulantes entregues se tornaram a própria natureza de suas paixões, vivendo para sempre e mantendo o que deve ser mantido na ilha, por isso lhe digo pequeno viajante, não faça desse seu lar, estará entregue a paixão antes de desbravar a vida, apenas encontre o que quer e parta de uma vez! Esse é um refúgio para aqueles à deriva”.
A história da ilha era um dos objetivos daquele jovem e não importava o que o narrador árvore dizia, ali era o lugar que ele havia escolhido para ser o seu lar, então agradecendo profundamente seu amigo contador de histórias ele retornou para a entrada clara da caverna.
A trilha continuava e o rapaz percebeu que levava a uma grande estrutura, um edifício em ruínas, onde após procurar um pouco encontrou uma abertura para o interior.
Deu de cara com uma vívida cidade de olhos. Olhos brilhantes, olhos coloridos, olhos comuns, todos grandes e flutuando por entre as salas.
No último andar ele chegou ao terraço e a noite havia finalmente caído, uma bela lua gigante enfeitava o céu escuro sem estrelas, mas o lago não a refletia, era completamente negro.
Um grande espelho surgiu em sua frente, esperando ver seu reflexo se surpreendeu quando estava refletido apenas dentes em uma boca flutuante se abrindo em um sorriso. Perguntas surgiram na mente do rapaz:
“Do que está fugindo? Será da sua família que espera o comportamento perfeito? Ou seria daqueles que te abandonaram em nome do ‘crescimento’? “ – Enquanto falava a coisa ia tomando forma a partir da boca – “Do que está fugindo? Da sua falta de perspectiva? Da solidão? Por que não hesita enquanto foge? Você procura morrer! ” – A coisa tinha uma forma humanoide, completamente vermelha, grandes olhos negros sem pálpebras surgiram e fitaram o garoto – “Vamos, me dê sua mão, irei lhe sussurrar o que fazer, você realizará seu desejo e encontrará seu lugar em um sono eterno ”.
O rapaz caiu de joelhos, olhava estarrecido a medonha forma que lhe esticava o braço, sentiu o peito apertar e comprimir seu coração, a respiração ficou difícil e ofegante, podia sentir seu estômago corroendo-se em uma dor pungente.
A coisa se aproximava, tudo que ela havia dito era o que o garoto sentia.
“É sempre assim” – disse a criança já quase sem forças – “Esses pensamentos e dúvidas estão sempre me afundando, me botando de joelhos” – Ele vomitou e olhou para o seu monstro, a garganta se fechava com um gosto amargo – “Eu quis matar você! Depois quis me matar, e não me importaria em morrer quando subi naquele bote, mas não é isso que busco! ”
Ele se levantou com as pernas bambas, ele chorava e suas palavras se misturavam ao catarro e aos soluços, ele mal podia formular seu raciocínio, mas tinha que por tudo pra fora, se a coisa fosse o matar que soubesse que não foi por escolha própria dele.
“Eu não quero que esse seja o meu lugar, eu quero que esse seja o lugar que supero você! Você é tudo aquilo que eu tento suprimir mas nunca consegui, porque eu te escuto! Eu te dei esse poder e essa forma, e aqui é onde posso confrontar você cara a cara, eu te reconheço e sei que você mora em mim, mas você não me define e nunca definirá, será sempre a voz a ser superada e eu juro que eu vou sempre te superar! ”.
A voz do garoto ecoou por todo o lago, conforme falava se sentia cada vez mais leve, respirou profundamente e sentiu o cheiro de grama molhada que tanto amava e sempre esteve presente no lago, mas só havia percebido nesse momento.
O cenário noturno se tornou incrível, o lago refletindo a luz da lua era prateado e as estrelas cintilavam como se cantassem uma melodia alegre para o rapaz.
Quando se voltou novamente para o espelho percebeu que o reflexo era um enorme auroque, uma criatura nobre e poderosa, com músculos maciços e chifres pontudos na direção do céu, em seu semblante uma ferocidade natural era estampada, mas uma grande ternura era evidente nos olhos, como se a raiva lhe fosse inerente, mas não importante.
Saudando aquela criança o auroque se retirou vagarosamente revelando o reflexo real. – “Obrigado por todo seu trabalho me protegendo”. – Com uma última reverência, o garoto se retirou do local, carregando um brilho diferente no olhar e uma vontade imensa de cantar nas águas do lago dourado.




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